Em sua carta, a Kinea Investimentos também destaca que parte do problema no Brasil é fiscal, o que pressiona a curva de juros local e reduz a capacidade de o Banco Central afrouxar a política monetária. “A consequência das nossas fragilidades é que, mesmo quando o choque externo melhora, o Brasil não consegue capturar integralmente esse alívio. Outros países reprecificam suas curvas para baixo mais rapidamente. O Brasil fica para trás porque o problema não é apenas petróleo, guerra ou Fed. É fiscal, mercado de trabalho, crédito, câmbio e prêmio de risco estrutural”, enumera a gestora.
De acordo com a Kinea, a continuidade do ciclo de calibragem da Selic irá depender de uma combinação de fatores, que envolvem surpresas baixistas com atividade e um ambiente externo estável. “O Brasil sobe juros, mas não consegue cortá-los de volta para níveis normais. O que antes parecia uma taxa emergencial começa a se parecer com uma nova taxa de equilíbrio”, nota a equipe de gestão da casa, que está “tática” em ativos brasileiros. A gestora relata ter posições aplicadas em juros curtos pelo viés baixista de inflação, mas protegida via inclinação.
Gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos revela que a instituição, apesar do direcionamento aplicado, ou seja, que aposta na queda das taxas, já vinha operando a renda fixa de forma mais conservadora do que a média do mercado ao longo do ano, devido à dificuldade percebida para o BC reduzir a Selic, mesmo antes de o conflito no Golfo Pérsico ser deflagrado. Em junho, houve aumento de posições aplicadas em juros reais domésticos de médio prazo, com hedge em operações táticas tomadas na curva nominal.
Essa estratégia foi positiva para a Armor, que passou ao largo do forte estresse nas curvas de juros em março, conseguiu captar bem nos meses seguintes e também em junho, período marcado pela perspectiva de que o memorando de entendimento entre Washington e Teerã iria derrubar as cotações do petróleo, com reflexos sobre os prêmios embutidos nas taxas futuras de Depósito Interfinanceiro (DIs).
“Mas o mercado religou a dinâmica fiscal”, observa Campos, aspecto que estava em segundo plano e voltou ao foco após novas medidas expansionistas aprovadas pelo governo, discussões de “pautas-bomba” e o enfraquecimento da expectativa de que haverá mudança do ciclo político no próximo governo.
A volta à tona do risco inerente às contas públicas, a piora das expectativas de inflação e, lá fora, a reprecificação para a trajetória de juros nos Estados Unidos, com um Federal Reserve (Fed) mais “hawkish”, levaram a Armor a zerar posições aplicadas na curva local, operando de maneira tática, aponta o gestor. “A cabeça até a eleição é operar extremos. Deve ter bastante volatilidade até lá”, prevê Campos.


