Cerrado já tinha grandes lavouras de milho há 1.000 anos – 16/07/2026 – Ciência

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Milho em plantação na região de Brasília - Adriano Machado - 22.ago.23/Reuters

Há cerca de mil anos, áreas do cerrado passaram por seu primeiro grande boom agrícola: povos indígenas da região, nos atuais territórios de Goiás, Minas Gerais e Bahia, intensificaram a produção de milho e, com isso, criaram grandes aldeias circulares de até 2.000 habitantes.

No entanto, em vez de apostar na monocultura, como as lavouras comerciais de hoje, os pioneiros agrícolas de então combinavam seus milharais com vários outros plantios, além de aumentar o consumo de carne em relação a seus antepassados.

Essas conclusões, baseadas na composição química dos ossos de seres humanos e animais com séculos de idade, foram publicadas nesta quarta-feira (15) por uma equipe de cientistas brasileiros, junto com colegas da Europa e dos Estados Unidos, no periódico especializado Science Advances.

Ainda não se sabe a razão por trás da intensificação agrícola que culminou no maior consumo do milho nesse período, conta a primeira autora do estudo, Eliane Chim, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Ela coordena o trabalho ao lado de André Strauss, também do museu da USP, e Patrick Roberts, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha.

Há uma grande lacuna entre a chegada do milho ao cerrado, há pelo menos 4.000 anos, e a formação das grandes aldeias associadas à lavoura, mais de um milênio antes do presente. Por ora, só é possível afirmar que o investimento mais intenso no plantio se deu entre os dois momentos. “Ainda não conhecemos esqueletos datados desse período, e há poucos sítios arqueológicos. Esperamos encontrá-los nos próximos anos”, diz ela.

Já os sítios ligados ao momento posterior são bem mais abundantes, perfazendo, juntos, uma tradição cultural designada como Aratu, caracterizada, entre outras coisas, pela cerâmica discreta, sem decoração, que inclui artefatos como urnas funerárias. Chim explica que não há uma ligação direta entre os grupos designados como Aratu e os povos indígenas atuais, embora existam possíveis elos com as etnias da família linguística jê, como os karajá e os xavante.

Na análise, que englobou dados de 37 sítios arqueológicos e 101 restos mortais humanos, com idades entre 1.050 e 330 anos, os Aratu foram comparados com populações de tradições arqueológicas conhecidas como Una (fabricantes de cerâmica, cujos esqueletos são encontrados em abrigos rochosos) e “sertão” (também ceramistas, típicos da região da caatinga). As três tradições são mais ou menos contemporâneas no período anterior à chegada dos europeus ao Brasil.

Obtendo amostras do colágeno dos ossos e do esmalte dos dentes, os pesquisadores mediram as proporções de diferentes isótopos (variantes) de elementos químicos como o carbono e o nitrogênio.

Esses isótopos possuem “pesos” distintos, ligados a variações no número de partículas no núcleo dos átomos, e podem ser absorvidos de formas diferentes pelos seres vivos ao longo da cadeia alimentar, começando pelas plantas, que captam o carbono da atmosfera para fazer fotossíntese, e passando por animais herbívoros, carnívoros e onívoros (em geral, esse é o caso dos humanos, que se alimentam tanto de vegetais quanto de proteína animal).

E é com base nisso que se torna possível detectar um aumento do consumo do milho, por exemplo. A planta é classificada como uma gramínea tropical ou C4, o que, na prática, significa que seu organismo tende a absorver uma quantidade maior de um desses isótopos, o carbono-13, do que outros tipos de plantas. Seres humanos ou animais que consumirem grandes quantidades de milho em sua dieta, portanto, vão apresentar essa mesma “assinatura” de aumento proporcional do carbono-13 em seu organismo, o que inclui o colágeno dos ossos e o esmalte dos dentes.

Foi exatamente isso o que os pesquisadores detectaram nos grupos Aratu quando os compararam com as pessoas associadas a outras tradições antigas e também a animais silvestres (de veados e porcos-do-mato a lagartos, passando por tamanduás e roedores) também oriundos de sítios arqueológicos. Nos Aratu, o chamado delta de carbono-13 (a proporção aumentada do isótopo) era bem mais elevada.

Há, porém, uma complicação interessante. “No conjunto geral de amostras, a maior parte dos indivíduos Aratu tem uma dieta baseada no milho, e alguns indivíduos apresentam uma dieta ‘mista’”, conta Chim. “A princípio, pensamos que poderiam ser os indivíduos mais antigos e que tínhamos detectado o aumento progressivo do consumo de milho.”

Acontece, porém, que o indivíduo Aratu mais antigo já tinha valores de carbono-13 bem altos –era o terceiro mais elevado da amostra. A cronologia, portanto, não explicaria a diferença, e trata-se de algo que a equipe terá de investigar melhor no futuro.

Já o estudo de isótopos de nitrogênio identificou também um aumento do consumo de carne nos mesmos grupos, o que é outro mistério, por enquanto. “Análises de zooarqueologia podem nos ajudar a compreender o aumento no consumo de carne, mas ainda são poucas as coleções de fauna de sítios Aratu”, explica ela.

Tanto a bioquímica dos esqueletos e dentes quanto outros dados, como restos de plantas achados nos sítios Aratu indicam ainda que, apesar da importância do milho, as aldeias tinham várias outras lavouras. A lista provavelmente incluía batata-doce, mandioca, feijão, amendoim e abóbora, além do algodão, usado para produzir tecidos. Também há indícios de produção de bebidas alcoólicas.

“O cerrado tem sido frequentemente ofuscado pela amazônia nas discussões sobre o uso da terra no período pré-colonial. Nossos resultados demonstram que ele também foi um centro de inovação, no qual diferentes sociedades desenvolveram formas distintas de interagir com uma das paisagens tropicais mais biodiversas do mundo”, resume Strauss.

FONTE UOL

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