Estudo revela influência do ambiente em aves migratórias – 09/07/2026 – Ciência

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Papa-moscas-preto macho com um geolocalizador de nível de luz nas costas, que teve sua migração rastreada a partir da população holandesa, Aekingerzand, Países Baixos, 9 de junho de 2027. - Richard Ubels

O destino escolhido por aves migratórias para passar o inverno não depende apenas dos genes. Um experimento que trocou ovos entre ninhos na Holanda e na Suécia mostrou que o ambiente onde os filhotes crescem também influencia essa decisão.

Os resultados da pesquisa foram publicados no último dia 25 na revista científica Science.

No experimento, pesquisadores da Universidade de Groningen (Holanda) e colegas do Reino Unido, Noruega, Rússia e Espanha acompanharam três grupos de papa-moscas-pretos (Ficedula hypoleuca): indivíduos oriundos de ovos geneticamente holandeses nascidos em solo holandês; indivíduos geneticamente holandeses, mas que foram levados (ainda nos ovos) para nascer na Suécia; e indivíduos geneticamente suecos e nascidos em território sueco.

Os autores instalaram pequenos geolocalizadores nas aves e acompanharam seus deslocamentos ao longo de cinco anos.

A expectativa era que, caso a migração fosse determinada apenas pela genética, as aves holandesas nascidas na Suécia seguiriam exatamente o mesmo destino de inverno que as aves geneticamente holandesas criadas na Holanda.

Porém, não foi isso que eles observaram. Os indivíduos transportados ainda nos ovos escolheram locais intermediários de invernada, distantes daqueles das populações holandesas criadas na Holanda —e também dos pássaros “100% suecos”.

Até agora, cientistas não tinham conseguido demonstrar em condições naturais que o ambiente onde uma ave migratória cresce também influencia a escolha do local onde ela passará o inverno.

Os resultados sugerem que a escolha dos locais de não reprodução no inverno resulta da combinação entre fatores genéticos e do ambiente encontrado nos primeiros meses de vida, segundo Christiaan Both, professor associado de ecologia da Universidade de Groningen e autor do estudo.

“Nossos resultados experimentais agora mostram claramente que o destino migratório tem tanto esse componente programado geneticamente quanto uma parte baseada em onde as aves foram criadas”, diz.

O papa-moscas-preto é uma ave comum em diferentes regiões da Europa e que migra todos os anos para a África Ocidental durante o inverno europeu, fazendo percursos que ultrapassam, muitas vezes, os 8.000 quilômetros.

Como todos eram migrantes de primeiro ano, não havia possibilidade de que já tivessem aprendido a rota em viagens anteriores aos locais africanos de não reprodução.

Até agora, os estudos com pássaros canoros haviam sido feitos em laboratório, o que não

permitia ter certeza sobre a influência do fator ambiental no destino migratório, de acordo com Both.

“De modo geral, acreditamos que a maioria dos traços tem um componente genético e ambiental, mas para os locais de migração era impossível conhecer esse componente ambiental sem translocar as aves.”

Segundo os autores, o estudo ainda não explica quais fatores ambientais alteram a escolha do destino. Mesmo controlando diferenças temporais, diz Both, as aves holandesas criadas na Suécia continuaram escolhendo áreas intermediárias de invernada, indicando que outros mecanismos também estão envolvidos.

Para o ecólogo, resta agora entender se alterações provocadas por mudanças climáticas podem modificar esse processo e afetar o sucesso migratório das populações.

“Ainda não sabemos quão importante é para uma determinada população invernar nos locais aonde eles vão, ou seja, se os papa-moscas holandeses se saem melhor quando visitam locais migratórios de invernada mais a leste do que se fossem para o local onde os suecos normalmente invernam”, afirma.

Para Both, um próximo passo dele e sua equipe é entender quão rápido essas populações podem se ajustar à mudança climática. “O que sabemos, de outros estudos com a espécie, é que o papa-moscas não consegue ajustar rapidamente o tempo de migração aos locais de reprodução às primaveras cada vez mais precoces. Isto pode provocar diminuições populacionais, pois os indivíduos chegam quando já não há recursos suficientes.”

FONTE UOL

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