A família da dona de casa Maria Marta Bezerra da Silva, 66, doente terminal que ficou dez dias internada no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, relata episódios de descaso e negligência com a paciente na unidade, administrada pelo Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Salete Moura da Silva, 45, filha da paciente, conta que a mãe era deixada muitas horas em uma mesma posição, sem ninguém que a movesse, além de ficar com a mesma fralda e sem outros cuidados de higiene por longos períodos.
Maria Marta descobriu um câncer de endométrio em 2022. Realizou consultas, quimioterapia, radioterapia e cirurgia no Hospital do Servidor. Três anos depois, recebeu o diagnóstico de metástase linfática e reiniciou o tratamento. A doença, porém, não parou de avançar. No último dia 9 de junho, durante uma sessão de quimioterapia, a paciente sofreu um AVC (acidente vascular cerebral).
“Ela perdeu a força da mão, os movimentos de um lado do corpo, a boca entortou. Minha mãe não falava”, diz. A filha conta que a mãe então foi levada para a emergência do pronto-socorro e que um novo AVC ocorreu naquela madrugada. “Ela ficou no setor por mais de 48 horas”, afirma Salete, que é enfermeira.
No dia 11, a paciente transferida para a enfermaria do pronto-socorro. De acordo com Salete, o médico avaliou que, como o quadro de saúde se mantinha estável, a paciente não precisaria de cuidados intensivos.
A filha diz que era difícil encontrar alguém da equipe de enfermagem. “Eu acho que tinha pouco funcionário. As pessoas ficam sobrecarregadas ou simplesmente não dão atenção ao parente que vai procurá-las. Tentei falar com uma enfermeira e ela só disse que o médico iria passar. Eu falei ‘poxa, minha mãe não foi virada e está na mesma posição'”, relata. Ela então foi transferida para a enfermaria da neurologia.
A demora para mudar a posição da paciente lhe causou uma escara, diz Salete. Em uma das ocasiões, Maria Marta chegou a esperar quase 24 horas por atendimento. Também houve demora para dar medicação contra dor.
Em outro episódio, uma auxiliar de enfermagem deu cinco comprimidos à paciente, mesmo diante da sua dificuldade de deglutição, informação que constava no prontuário, segundo a filha. Essa dificuldade ocorre porque o AVC afeta áreas do cérebro responsáveis pelo controle dos músculos da boca, língua e garganta. Salete afirma que três comprimidos ficaram presos na garganta da mãe e foram retirados por um familiar.
“É inaceitável. Tenho 21 anos de profissão e nunca vi algo assim. É como se não houvesse profissionais ou todos fossem amadores”, diz a filha.
Na última sexta-feira (19), Maria Marta foi transferida para o Hospital Personal, na Mooca, zona leste de São Paulo. A unidade integra a rede credenciada do Iamspe e é especializada em reabilitação e cuidados paliativos.
Em nota, o Iamspe lamentou o ocorrido com Maria Marta Bezerra da Silva e afirmou que abriu procedimento para investigar os fatos. Disse, ainda, que prestou apoio na transferência da paciente e que mantém contato direto com a família para acolher as demandas e prestar o suporte necessário.
PRECARIZAÇÃO
O caso ocorre em um momento em que o Hospital do Servidor é alvo de críticas.
Em dezembro de 2025, reportagem da Folha mostrou que o Ministério Público de São Paulo enviou à gestão Tarcísio dois ofícios nos quais afirma que o Iamspe enfrenta precarização e falta de recursos. De acordo com a promotora Dora Strilicherk, o governo “dá as costas para a manutenção do instituto”, inviabilizando “a prestação de serviço de saúde de forma digna e integral”.
No início deste mês, outra reportagem mostrou que residentes do hospital afirmam cumprir jornadas de até 90 horas de trabalho por semana, em desacordo com o limite definido em lei, de 60 horas. Residentes relataram exaustão física e psicológica decorrente das condições de trabalho, e uma denúncia chegou a ser feita ao CNRM (Conselho Nacional de Residência Médica), órgão do MEC (Ministério da Educação).


