O colesterol desregulado não faz barulho, não causa dor e pode circular durante anos pelo corpo de forma silenciosa, antes de apresentar suas consequências mais graves. Quando há indicação médica, os remédios são importantes para reverter o quadro. Mas mudar o estilo de vida é o primeiro passo para reduzir os níveis dessa gordura.
“O colesterol pode ser tratado com uma combinação de atitudes, como controle de peso e atividade física. Esse é o pilar do tratamento não medicamentoso”, diz o cardiologista Márcio Miname, membro do departamento de aterosclerose da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia).
Segundo o médico, mesmo se o uso de fármacos for indicado, a alimentação ainda é fundamental. “O indivíduo tem que seguir uma dieta evitando gordura saturada e gordura trans.”
Com colesterol alto, a aposentada Márcia Regina Spercasechi Dutra, 68, teve um infarto em 2001. Em 2019, precisou trocar a válvula cardíaca e colocar duas pontes de safena.
“Depois do infarto, a gente nunca volta a ser a mesma. Passei muito mal, fiquei na UTI, em coma. Quem tem esse colesterol, por favor, se cuide, é horrível. Antes, a gente não imagina o que é um infarto, o que é uma cirurgia do coração”, conta Márcia.
Qual é o colesterol perigoso?
O colesterol ruim é o LDL, da sigla em inglês Low-Density Lipoprotein (lipoproteína de baixa densidade). Esse tipo de gordura vem do fígado para o sistema circulatório e se acumula nas artérias, causando aterosclerose, uma doença inflamatória crônica caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura, cálcio e outras substâncias nas paredes das artérias
Essa condição provoca infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVC), obstrução das artérias das pernas e até morte cardiovascular.
No caso de Dutra, o LDL chegou a quase 500 mg/dL, quando o esperado para ela, que tem propensão à doença, era uma taxa abaixo de 70 mg/dL ou 50 mg/dL. Para quem tem risco baixo, o índice deve ser inferior a 115 mg/dL.
Em função do quadro, a aposentada não pode comer frituras, frios ou laticínios. “Quase nada. É difícil fazer o regime, a gente se sente obrigada, mas tem de fazer”, afirma.
“É importante entender que o colesterol alto geralmente não causa sintomas, mas continua lesionando as artérias ao longo dos anos, formando placas de gordura que se calcificam e promovem um aumento do risco cardiovascular”, diz a endocrinologista Cristina Formiga Bueno, diretora da SBEM-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo).
É importante entender que o colesterol alto geralmente não causa sintomas, mas continua lesionando as artérias ao longo dos anos, formando placas de gordura que se calcificam e promovem um aumento do risco cardiovascular
Não tem como fugir da dieta e da atividade física
Se o quadro não exige início imediato de medicamento, o tratamento para o colesterol se dá apenas pela mudança do estilo de vida, com foco nas escolhas alimentares e no combate ao sedentarismo.
Para melhorar a alimentação, Bueno recomenda a máxima “abrir menos embalagens e descascar mais.”
“A alimentação deve ser rica em fibras, como frutas, verduras, legumes e grãos integrais. Diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados e de gorduras saturadas também vai ajudar bastante a reduzir a absorção do colesterol da dieta”, destaca Bueno.
De acordo com Miname, o que mais influencia na dieta para combater o colesterol é a substituição de gorduras saturadas por gorduras insaturadas. “Trocar a carne vermelha por peixe e óleos em geral por azeite”.
Outro pilar importante para reduzir o colesterol é a prática regular de atividade física. “Pelo menos 150 minutos por semana, objetivando manutenção ou ganho muscular e perda de peso quando necessária”, reforça o endócrino.
Parar de fumar e controlar comorbidades como obesidade, esteatose hepática (gordura no fígado) e diabetes também fazem muita diferença.
“Em algumas pessoas, essas mudanças conseguem reduzir significativamente o colesterol. Podemos tentar essas mudanças por três meses e, depois, reavaliar o colesterol para ver se há necessidade de tratamento medicamentoso”, indica Bueno.
Todo mundo precisa de medicamento?
Alguns quadros, como o de Dutra, exigem que o paciente tome medicações regulares por toda vida. Isso pode acontecer em pessoas que têm condições raras de acúmulo de LDL ou naquelas em que o corpo tende a mudar a forma de eliminação natural do colesterol ruim.
“Quando há indicação médica, não se deve fugir do tratamento farmacológico, porque isso vai ser uma proteção. O paciente deve tomar adequadamente, porque o remédio controla o colesterol e vai reduzir risco de infarto, AVC e outros problemas cardíacos”, afirma Miname.
Os grupos de risco com mais chance de precisar de medicação para tratamento incluem, principalmente, pessoas que já tiveram infarto ou problema cardíaco prévio, mas também quem tem diabetes, fuma ou faz tratamento contínuo para hipertensão.
Se a carga de placas de gordura detectada pelos exames de sangue for muito alta ou houver predisposição genética, o risco já é considerado alto.
“Quando o médico indica um medicamento, isso significa que o risco de infarto ou AVC é alto o suficiente para que os benefícios superem os riscos. Os remédios não substituem um estilo de vida saudável: eles complementam o tratamento”, avalia Bueno.
Exames periódicos são importantes
Fazer exames regulares é a forma mais segura de detectar o colesterol alto cedo e ter certeza de que o coração e as vias circulatórias estão bem. O empresário Paulo Sérgio, 56, por exemplo, tem um estilo de vida saudável, mas foi pego de surpresa quando sofreu um infarto em 2019.
“Apesar de não fazer uso de cigarro ou de bebida alcoólica, e ter uma dieta relativamente controlada, meu organismo estava produzindo colesterol ruim. E era uma fase que eu estava sem os meus checkups, não sabia dessa minha condição genética”, lembra Sérgio.
Ele ainda precisa de medicamentos para manter níveis satisfatórios de colesterol, mas, depois do susto, aumentou a rotina de musculação e buscou melhorar ainda mais a dieta, dando preferência a carnes brancas e redução de carboidratos.
“Também faço acompanhamento com a minha cardiologista. Desde a minha cirurgia tenho uma vida normal e sem restrições, mas passei por um risco de morte que poderia ter sido evitado com a realização de alguns exames laboratoriais simples”, destaca.


