Os amigos e o namorado da técnica de enfermagem Juliana Ferreira, 40, se afastaram quando ela teve depressão. Ao se recuperar, ela tentou conhecer outros homens em aplicativos de relacionamentos, mas as experiências foram frustrantes. No ano passado, descobriu um grupo de motoqueiras e resolveu se inscrever. Hoje nem pensa mais em namoro. Afinal, encontrou nas novas amigas o que buscava: quem a acolhesse e escutasse. “Me sinto muito bem no meio das meninas”, diz.
Ferreira faz parte de um movimento que tem ganhado força nos últimos tempos. Cansadas de dates fracassados ou relacionamentos com homens que não dão certo, mulheres têm preferido gastar seu tempo, energia e dinheiro com as amigas.
Para Ingrid Gerolimich, psicanalista e autora do livro “Para Revolucionar o Amor” (Pioneira), esse comportamento acompanha a tendência de descentralização do amor romântico.
As mulheres foram ensinadas desde pequenas que só serão felizes se namorarem ou casarem, do contrário, “ficarão para a titia”. Esse discurso molda o inconsciente feminino e traz um sofrimento profundo, diz Gerolimich. “Ninguém quer passar a vida sentindo que sua existência está incompleta.”
Nesse contexto, a amizade feminina é revolucionária, afirma a psicanalista. “Ela entra para combater a solidão e mostrar que não existe vínculo hierarquicamente maior que o outro.” Isso permite que as mulheres olhem para a vida com mais liberdade e percebam que há outras formas de afetividade, acrescenta. “É como se tirasse um peso.” Essa virada de chave também transforma as escolhas de vida da mulher, que percebe que pode investir em outros projetos.
Aprender a andar de moto era uma vontade antiga da técnica de enfermagem, que andava na garupa de namorados e amigos. Ela compartilhava suas inseguranças de iniciante com o grupo de motoqueiras, chamado Aceleradas. “Fui acolhida e ouvida. Sempre tinha gente me apoiando”, conta. Elas se reúnem com frequência para fazer passeios e viagens. Quando está com as amigas, a recém-habilitada se sente leve e segura. “Posso ser eu mesma sem julgamentos.”
A crise do amor romântico, a frustração nas relações amorosas hétero e o avanço no mercado de trabalho tem feito mulheres perceberem que o casamento pode não compensar, diz Gerolimich. Elas acumulam funções no trabalho fora e dentro de casa e ficam sobrecarregadas.
Como foram ensinadas desde cedo que precisam estar num relacionamento, é comum começarem a namorar ainda adolescentes. Desfazer essa construção leva tempo e pode não ser fácil, diz Kamilah Neves, psicóloga clínica especializada em saúde mental da mulher.
Tanto elas quanto a sociedade, no entanto, tem “visto esse estado de estar solteira de uma forma mais gentil”, diz a psicóloga. Ser solteira não é considerado apenas uma fase de transição entre relacionamentos, mas uma escolha.
Para Neves, além do cansaço com os homens, as mulheres têm esperado mais para encontrar alguém que faça sentido para elas. Percebem ainda que há outras áreas para focar e questionam suas escolhas de companhia —preferindo aquelas com a garantia de momentos prazerosos.
A editora de vídeo Sophia Sunairi, 35, prefere sair com as amigas do que homens. Além disso, ela conta que está numa fase em que prioriza os gastos financeiros. “Vou preferir ir num date ruim ou sair com uma amiga e realmente ter um tempo de qualidade?”, questiona. “Tenho optado pela segunda opção sem pensar duas vezes.”
Recentemente, circulou pelas redes sociais uma “trend” na qual amigas faziam ações geralmente atribuídas a homens. “Ele abre a porta para você? Eu abro”, “Ele te faz rir? Eu faço”, são algumas situações nos vídeos bem-humorados, que mostravam que elas mesmas se bastavam.
Sunairi nunca viu a solteirice como problema. Cansada de apps de namoro, ela observa que as pessoas, sobretudo os homens, andam desinteressadas. Com as amigas, consegue ter conversas profundas, sai para comer, praticar esportes, visitar museus. “O importante é se encontrar”, diz a editora de vídeos, que também encontra nelas uma rede de apoio. “Todo problema que eu tenho, vou conversar com elas.”
A amizade feminina costuma ser vista como falsa ou envolta em rivalidade. Garotas foram ensinadas a não amar as outras, mas agora estão redescobrindo esse amor, diz Neves. Segundo as especialistas, essa é mais uma construção do patriarcado. “Se querem ter poder sobre uma mulher, é mais fácil quando ela está sozinha, porque juntas são mais fortes”, afirma Geromilich.
Ambas observam que, na realidade, ocorre o contrário: as mulheres oferecem solidariedade e acolhimento. “Quando uma mulher tem filho, quem vai ajudá-la a fazer comida e segurar a criança? Quem está do lado dela, quando está fazendo um tratamento de câncer?”, questiona a psicanalista. “Existe uma diferença radical entre aquilo que se fala no discurso, que internalizamos, e o que acontece na prática”.
A antropóloga e colunista da Folha Mirian Goldenberg fez uma pesquisa sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, na qual perguntou a mulheres: “Quem vai cuidar de você na velhice?“. A maioria respondeu que elas mesmas, seguidas pelas amigas. Para Goldenberg, a união feminina é “uma estratégia de sobrevivência e de resistência frente à lógica da dominação masculina”.
Por outro lado, a amizade masculina não oferece tanta escuta ou trocas, avalia Gerolimich. Sunairi concorda: ela tinha mais amigos homens na época do colégio, mas hoje percebe que essas amizades são “muito superficiais”. Com eles, não consegue conversar sobre sentimentos e sempre precisa tomar a iniciativa para marcar algo. Os vínculos femininos são subestimados, ela conclui. “Todo mundo fala de relacionamento amoroso, mas um dos mais importantes é a amizade.”


