Rei de ‘Odisseia’ não era real, mas teve adoradores reais – 17/07/2026 – Ciência

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Torre helenística no terraço superior de Odysseion (Escola de Homero), em Ítaca, na Grécia - Christina Marabea via The New York Times

Por quase 3.000 anos, “Odisseia”, de Homero, reinou como a maior jornada épica da literatura. É uma história de um rei exilado que enfrenta deuses vingativos e monstros marinhos para reconquistar seu trono na ilha jônica de Ítaca. A obra tem pelo menos 60 traduções só para o inglês e mais de três dezenas de adaptações cinematográficas, incluindo a versão de Christopher Nolan, que estreou nos cinemas nesta semana.

O astuto monarca que idealizou o Cavalo de Troia foi um governante de carne e osso ou apenas fruto da imaginação de Homero?

Estudiosos modernos geralmente consideram o poema um folclore. Contudo, nos últimos anos, arqueólogos trabalhando em Ítaca encontraram evidências de que os antigos viam a história de forma bem diferente. No alto de um cume rochoso, descobriram o que pode ser o fã-clube mais devoto da antiguidade: as ruínas de um extenso santuário de 2.400 anos com detalhes que sugerem que o rei Odisseu era uma figura de culto local.

O complexo parcialmente preservado está esculpido diretamente nos terraços do monte Exogi e é conhecido localmente há muito tempo como a Escola de Homero. Arqueólogos investigam o local há mais de um século, mas descartaram qualquer relação com “Odisseia”. Uma escavação de 1878 no afloramento rochoso encontrou pouco que correspondesse às descrições vívidas do texto de Homero.

Desde 2018, entretanto, o arqueólogo Giannos G. Lolos, da Universidade de Ioannina (Grécia), lidera escavações no local, dando continuidade a pesquisas conduzidas ali de 1994 a 2011. Em um comunicado no ano passado, o Ministério da Cultura grego descreveu importantes descobertas no sítio, incluindo um grande salão cerimonial, uma estrutura que pode ter sido uma torre de vigilância estratégica e uma cisterna intacta erguida no estilo micênico.

Há muito tempo os moradores locais se perguntam se as ruínas seriam as fundações do palácio micênico de Odisseu. Mas Lolos observou que sua equipe não encontrou nada que indicasse que as partes remanescentes do complexo datassem de 1200 a.C., quando as viagens de Odisseu teriam ocorrido. Ainda assim, as ruínas fazem a ponte entre a poesia antiga e a realidade histórica. Para os gregos da Antiguidade, Odisseu era real o suficiente para inspirar profunda e duradoura reverência.

Rachel Kousser, arqueóloga e historiadora da arte da Universidade da Cidade de Nova York que não participou do projeto, disse que as novas peças ajudam a entender a maneira como os gregos helenísticos criaram um passado homérico imaginado.

Tesouros na Escola de Homero

A Escola de Homero, que os arqueólogos chamam de Odysseion, data aproximadamente do século 3º a.C., cerca de 500 anos depois de Homero ter composto suas epopeias e um milênio inteiro após o herói supostamente ter iniciado seu desastroso retorno para casa após a guerra.

Nas profundezas do solo de Odysseion, Lolos e seus colegas descobriram taças pretas polidas, joias e vasos de oração particulares. Mas o verdadeiro tesouro eram milhares de fragmentos de cerâmica quebrados. Entre eles havia telhas gravadas com latim e grego clássico, sugerindo que o local era um centro surpreendentemente cosmopolita.

A equipe também encontrou mais de cem moedas de bronze e prata cunhadas em cidades-Estado dos mundos helenístico e romano.

“Isso aponta para um fluxo constante de marinheiros, mercadores e peregrinos, mesmo de lugares muito distantes, ao Odysseion de Ítaca”, disse a arqueóloga e pesquisadora Christina Marabea, da Universidade Aberta Helênica em Patras, na Grécia. Em 2022, ela colaborou com Lolos e outros estudiosos em um artigo publicado no periódico Journal of Neolithic Archaeology.

Em três ladrilhos separados, o nome Odisseu foi estampado ou inscrito na argila. Um deles traduz-se como “de Odisseu”, sugerindo que o herói mítico era dono das terras. Outro diz “para Odisseu” —um presente direto ao próprio rei.

Esses ritos não eram reservados só ao herói viajante. Por todo o sítio de escavação, arqueólogos encontraram dezenas de fusaiolas e pesos de tear em formato de pera —ferramentas cotidianas de um ofício ancestral.

Para Marabea, a presença desses objetos sugere fortemente que as mulheres desempenhavam um papel central nos rituais. Ela disse acreditar que essas adoradoras podem ter estado venerando a esposa do rei, Penélope, que ficou famosa por usar seu tear para manter os pretendentes à distância.

A história no mapa

Após 20 anos de guerra brutal e peregrinação sem rumo, o rei Odisseu finalmente chegou em casa, em Ítaca. Ou será que não?

Até mesmo historiadores antigos tinham suas dúvidas. No século 3º a.C., o geógrafo Eratóstenes alertou os leitores para não levarem “Odisseia” tão ao pé da letra. “Você encontrará o cenário das andanças de Odisseu quando encontrar o sapateiro que costurou o saco dos ventos”, escreveu ele com ironia.

Em “Odisseia”, Ítaca é descrita como um santuário de terras baixas situado no ponto mais a oeste, onde o sol se põe. No entanto, a moderna ilha grega que leva esse nome é montanhosa e fica a leste de sua vizinha, Cefalônia.

Uma teoria de longa data propõe que um canal da Idade do Bronze separava a península de Paliki de Cefalônia, tornando-a uma ilha distinta, noção apoiada por pesquisadores durante décadas. Mas 20 anos de pesquisa geológica não produziram evidências desse canal, levando a uma reinterpretação por parte dos estudiosos.

Em um artigo publicado em 5 de julho na revista Antigone, o classicista James Diggle e o geólogo John Underhill —coautores, junto com Robert Bittlestone, de “Odysseus Unbound: The Search for Homer’s Ithaca”— propõem que os primeiros tradutores e cartógrafos interpretaram mal o poeta. Uma leitura rigorosa e literal do texto original em grego, observam eles, nunca identifica Ítaca como uma ilha, e sim em termos mais sugestivos de uma península.

No entanto, as descobertas recentes no Odysseion podem direcionar a disputa de volta à tradição. Segundo Lolos, as escavações validam a Ítaca moderna como a verdadeira Ítaca de Homero. Ele argumenta que a descrição “baixa e distante a oeste” nasceu de uma perspectiva poética, não de cartografia literal. Vista do mar, a costa de Ítaca espelha as paisagens homéricas.

Lolos afirmou que as provas mais contundentes do passado mítico da ilha são os artefatos recuperados de seu solo. Por exemplo, um fragmento de uma máscara de oração de argila do período helenístico tardio, com uma promessa a Odisseu. Ou um pequeno busto de bronze, encontrado em 1904, que ecoa a silhueta característica do herói com seu gorro, presente nas moedas antigas de Ítaca. Ou um decreto do final do século 3º a.C. que foi registrado e preservado em paredes de pedra em Magnésia (atual oeste da Turquia): foi emitido pelo povo de Ítaca e menciona explicitamente a Odysseia, um festival atlético e cultural realizado em celebração ao rei.

Esses objetos fazem mais do que remodelar cronologias arqueológicas; eles conectam a literatura à paisagem. Para aqueles que viveram ali, observa Lolos, a Ítaca moderna era indiscutivelmente seu lar. O mito, ao que parece, pode ser apenas história esperando para ser desenterrada.

FONTE UOL

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